Lula vai montar seu Ministério pensando não apenas na

Então, Lula é popular, populista, carismático, comunicativo, habilidoso nas negociações. É um político nato, talvez o maior "animal político" que já tenha pisado à terra do Pau-Brasil.

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Bem, tudo isso a gente já sabe, decor e salteado, até seus adversários reconhecem. Mas ele não chegou até aqui só por isso.

Ele também tem tutano! Resistiu ao cárcere e enquanto muitos dos ratos presos pela Lava Jato vendiam mentiras e meias verdades por reduções de penas em delações premiadas mais que suspeitas, ele disse que não trocaria sua dignidade por sua liberdade; quando quiseram mandá-lo pra casa em prisão domiciliar, negou-se, dizendo que sua casa não seria sua prisão. Isso é ter tutano.

Mas a vida não é trigonometria, ela não simplesmente retribui o sucesso na proporção da virtude política ou da força interior. Há elementos de caos e não só de ordem a considerar. Não fosse o hacker de Araraquara ter encontrado aquelas mensagens escabrosas no celular do Dallagnol, o Dallagnol não as ter apagado como os outros fizeram, e elas terem ido parar nas mãos da pessoa certa para divulgá-las, talvez o Lula ainda estivesse preso e seu destino fosse agora o limbo da história, aquele lugar dos ambivalentes, como um Getúlio Vargas, que é lembrado tanto pela CLT e pela industrialização brasileira, quanto pelo Estado Novo e o suicídio. E talvez Bolsonaro tivesse sido reeleito. Talvez a história do Brasil, e não apenas a dele, fosse outra agora.

Então, também é preciso ter sorte, e contar que alguém jogue os dados.

Enfim, é preciso ter estratégia, e é aí que eu quero chegar. Lula é um estrategista, e tem capacidade de análise.

Ele sabe que é muito maior que o PT, sabe que não irá para a reeleição, sabe que o PT não tem um nome para sucedê-lo nacionalmente, sabe que pelo tamanho que tem o partido não abrirá mão da candidatura em 2026, sabe que colocou como Vice alguém que também tem ambição presidencial, e sabe que o Alckmin não tem qualquer identidade com o seu projeto político, por mais leal que seja a ele pessoalmente.

Então, Lula vai montar seu Ministério pensando não apenas na governança, mas também na sucessão presidencial. E qual é o posto que pode eleger um Presidente? “É a economia, estúpido!” Por isso minha aposta é que vá colocar o Haddad no Ministério da Fazenda, e por isso também o próprio Haddad negou-se a fazer parte da equipe de transição da educação, onde mais teria a contribuir.

Se ele assumir a Fazenda e forem quatro anos de recuperação econômica, estabilidade nos mercados, captação de investimentos, geração de emprego, crescimento e controle da inflação (e tem muita gente séria que aposta que será, pelo simples fato de recuperarmos alguma estabilidade institucional), Haddad poderá ser o FHC de 1994: alguém sem carisma, sem identidade popular, sem capilaridade nos rincões brasileiros, mas que poderá ser eleito apenas para que a economia continue fluindo.

Na economia é assim, o brasileiro vota muito em função da conjuntura: quando a coisa vai bem, ele vota na continuidade, quando vai mal, vota na mudança. Foi assim nas mudanças que elegeram Collor em 1989, Lula em 2002 e Bolsonaro em 2018, e foi assim também nas demais eleições que mantiveram os partidos e os governantes que estavam no poder. Simples assim.

Se for isso mesmo, se Lula nomear Haddad e tudo der certo, talvez já esteja se desenhando aí o seu sucessor.

Agora, se for mal…

Bem, faltou eu dizer, além das virtudes políticas, do tutano, da sorte e da estratégia, o sucesso político depende de fazer apostas. E Lula é também um apostador. Quando estava preso, ele apostou que seria inocentado, que seus algozes seriam desnudados e que perderiam a aura de heróis nacionais. Deu certo! Agora talvez ele vá apostar de novo, e para o bem do Brasil, espero que ganhe.

*Renato Souza é professor titular da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), formado em Engenharia Agronômica pela Universidade Federal de Pelotas (1992), mestrado em Economia Rural pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1996) e doutorado em Administração pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2004).

**Este é um texto de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Fonte: BdF Rio Grande do Sul

Edição: Katia Marko

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